sábado, 28 de dezembro de 2013

Beatriz Hierro Lopes


A rua era garganta. Voz de acordeão cego. Banco desdobrável para não se fazer esperar demasiado tempo à hora da partida. À entrada do bazar, de música alinhavada ao sobretudo preto, o velho usava de uma cegueira quase branca, quase azul, exposta à via pública. No pulso esquerdo, um cordão pintado de verde ligava-o ao pescoço de um vadio de pêlo ralo que sabia da música pela vibração do fio ao traduzir o movimento dos dedos do seu senhor sobre as teclas. [...] - CONTINUA AQUI

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UMA ESPÉCIE DE CONTO DE NATAL


Reuniam-se aos domingos à tarde
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vinha tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não


ADÍLIA LOPES

sábado, 14 de dezembro de 2013

QUESTÕES DE VOCABULÁRIO




"Em Portugal, e não só, esta novilíngua tem sido bastante eficaz a fissurar as relações entre os trabalhadores das entidades privadas e dos serviços públicos, e igualmente eficaz a gerar sentimentos de culpa entre os cidadãos, já que tudo o que se prende com serviços sociais do Estado tende a ser apresentado como um peso, um despesismo sem retorno (como se não tivesse relação com os impostos que pagamos). Neste contexto, flexibilidade é o conceito normalmente usado para conferir uma sugestão de dinamismo social e económico ao que não é senão precariedade nas relações laborais."

Rosa Maria Martelo
in Cão Celeste n.º4, Lisboa, Novembro de 2013




domingo, 8 de dezembro de 2013

BANCO QUALQUER COISA


V


A última vez que te encontrei foi diante do Banco Qualquer Coisa. Verificavas o preço das acções. Elas baixaram, não há dúvida. Talvez isso prejudique o teu futuro na América e até mesmo a tua actual capacidade para os estudos. És fraco e não podes impedi-lo. Se fosses resoluto poderias ordenar a um dos responsáveis: "sobe-me essas acções, badameco!"
Não confio já nos santos ou nos poetas e muito menos nos heróis.
Tudo é agora uma questão de mais ou menos brutalidade, de maior ou menor capacidade de matar. Impunemente - é preferível.
As acções baixam - não há dúvida.


Manuel de Castro, "Hans e a mão direita"
in GRIFO - Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores, 1970





Ilustração de Luís França
in Cão Celeste n.º4, Lisboa, Novembro de 2013

sábado, 7 de dezembro de 2013

# 4




No quarto número do Cão Celeste
com direcção de Inês Dias/Manuel de Freitas 
e coordenação gráfica de Luís Henriques, 
colaboram Abel Neves, Alberto Pimenta, Alexandre Sarrazola, Ana Menezes, 
Ana Isabel Soares, André Lemos, Bárbara Assis Pacheco, Cláudia Dias, 
Daniela Gomes, Diniz Conefrey, Fabiano Calixto, Gavarni/Estúdios & etc, 
Inês Dias, Isabel Baraona, Isabel Nogueira, Joana Matos Frias, Jorge Roque, 
José Ángel Cilleruelo, José Miguel Silva, Luís Filipe Parrado, Luís França, 
Luís Henriques, Manuel de Freitas, Manuel Diogo, Maria João Worm, 
Maria Da Conceição Caleiro, Paulo da Costa Domingos, Rosa Martelo, 
Ricardo Castro e Rui Nunes.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

MANDELA / DA ESPERANÇA




John Mateer, 'Invictus e a revolução negociada ou a ideia de poema lírico segundo Clint Eastwood'
in Cão Celeste n.º2, Lisboa, Outubro 2012

domingo, 17 de novembro de 2013

CONTARELO


Venho dum país de neve e floresta
cujas renas nos aquecem com o bafo
e onde deixei um filho gigantesco.
Mas que fútil triste música é esta
que no ar desenha melancólicas flores de luz
e vem acompanhada dum tinido grotesco?!!

Saudade, astrolírica saudade
teu nome é Mathilde
a voz                        Fidelidade
e o contorno é um pequeno cão macambúzio
feito com tinta castanha da China.
Fim.


Manuel de Castro
Dezembro de 1967

in & etc - uma editora no subterrâneo,
Lisboa, Letra Livre, 2013

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

OS TRÊS VELHOS


vinde cá ver estes três velhos
tão pacatos ao sol.

o país despovoa-se.
a curva demográfica desce.
a inflação derrapa.
o desemprego aumenta.
o estado rouba.

mas estes três velhos apanham sol,
contentes no correr da tarde.

os ricos baldam-se a pagar impostos.
o lince da malcata está em perigo.
a poluição ameaça os cursos de água.
as crianças aproveitam zero na escola.
há escândalos, negociatas, corrupção.

mas estes três velhos sentam-se num banco
e vão apanhando sol.

os espanhóis querem reter os rios.
a saúde está um coas.
a justiça está uma vergonha.
vivemos do cartão de crédito.
até vamos alugar submarinos.

mas estes três velhos franzem os olhos
e as caras enrugadas
à claridade solar benfazeja.

a agricultura está em crise total.
as pescas estão em vias de extinção e de miséria.
os empresários só funcionam com subsídios.
a construção de obras públicas encerrou.

mas estes três velhos só não querem
que lhes roubem o sol (como diógenes).

a televisão transmite as maiores idiotias.
os noticiários só fazem propaganda do governo.
a inépcia do governo não tem limites.
o primeiro-ministro afecta um ar untuoso de primeira-comunhão,
ou de baptismo porque a maioria tem muitos afilhados.

mas estes três velhos estão-se borrifando
solenemente.
não são de direita nem de esquerda.
apanham sol.


Vasco Graça Moura (a partir de uma fotografia de Gérard Castello-Lopes)
in Giraldomachias, Lisboa, Edições Quetzal / Casa Fernando Pessoa, 2000

domingo, 29 de setembro de 2013

NÓS, OS ANIMAIS


"[...] Não sendo imediatamente visível que configuração de homens corresponde a tal mundo pós-histórico – um mundo de Ronaldos, nas mais diversas atividades e profissões; o american way of life; um regresso à condição de «bom» selvagem, na selva urbana e não urbana – e independentemente de isso não constituir necessariamente uma «catástrofe cósmica», como diz Alexandre Kojève (p. 158), vale a pena, julgo eu, privilegiarmos momentos em que o animal que somos ainda é uma experiência possível para os homens."


David Antunes, "Nós, os animais" - AQUI

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

EMANUEL JORGE BOTELHO


ANTERO DE QUENTAL, O ANJO CANSADO


     os dias iam indo sem sair da noite.
     todas as manhãs um cão entrava nos seus passos para lhe fazer companhia.
     colocou tudo dentro de uma rasura de soneto e fechou a porta.
     fechar a alma era coisa já antiga. como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras da cor.
     a vida poucas vezes lhe deu tempo de guardar no bolso o que era do silêncio, esse riso de hiena armadilhado que põe mel no rumor do medo.

     chegou ao Campo de São Francisco à hora que acordara.
     a morte já lá estava com as asas recolhidas.
     sentou-se, deu ao cão um longo afago, aconchegou-o junto às pernas, e deixou pousar nos lábios o sal de duas lágrimas.
     depois, devagarinho, tirou do bolso a mão direita e deu dois tiros na morte.

     no chão, desde aquele dia, ficou o recorte de uma sombra.
     quem a vê, dá-lhe o nome de sudário.
     e reza.


Ilha de S. Miguel, Açores


[in Cão Celeste n.º2, Lisboa, Outubro 2012]

terça-feira, 10 de setembro de 2013

QUANDO A ESCOLA DEIXAR DE SER 
UMA FÁBRICA DE ALUNOS

por
CATARINA FERNANDES MARTINS


domingo, 25 de agosto de 2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Jean Cocteau (2)

GRAVIDADE DO CORAÇÃO


A água das fontes corre gravemente como a boca de um cão. A rosa intimida-me. Nunca ri. E a árvore dorme de pé. Não brinca. Ordena, por exemplo, à sua sombra: deita-te, descansa, partimos assim que anoitecer. Ao anoitecer, a sombra sobe-lhe para os ramos e partem.
Quem ama escreve nas paredes.
Se eu visse o meu coração, já não teria coragem para te sorrir. Ele trabalha demasiado nesta noite sem lua. Deitado sobre ti, espreito o seu galope, que me traz uma má notícia.


- in Tanta coisa por dizer,
trad. Inês Dias,
Lisboa: Língua Morta, 2012

sábado, 17 de agosto de 2013

COMPOSIÇÃO DE LUGAR


Cerra os teus olhos, eu conto.
De manhã cedo acordado,
Abraão subiu ao monte.
E sob um céu de fornalha

viu na planura queimada
lá da banda de Sodoma
um cão a chorar por todas
as cinzas que foram casas.

O cachorro tão apócrifo
acrescenta um contraponto
a esse fumo canónico
do velho bíblico conto.


José António Almeida, A Mãe de Todas as Histórias,
Lisboa: Averno, 2008

domingo, 4 de agosto de 2013


"Elas sempre existiram, as pequenas editoras contra a corrente, a que em tempos se chamava «de vão de escada». Mas elas parecem ter regressado em força um pouco por todo o lado, para contornar crises, resistir aos grandes grupos e afirmar a mais valia de pensamento e poesia. No meu último livro – O Mundo Está Cheio de Deuses. Crise e crítica do contemporâneo (Assírio & Alvim, 2011) – defendo a tese de que há inúmeros sintomas de uma generalizada tentativa de «organizar o pessimismo» (a expressão é de Walter Benjamin), e de que uma das formas actualmente mais eficazes de resistência à formatação das consciências é a pluralização dos focos de inovação, com uma clara vontade de resistir à industrialização da cultura e à mercantilização da literatura, para trazer à luz o novo e o diferente – que pode também incluir o «clássico»!
Exemplo paradigmático, e ele próprio quase já clássico entre nós, é o da Averno de Manuel de Freitas e Inês Dias, com as suas muitas pequenas edições (de que sairam recentemente de uma assentada mais três: As Coisas Naturais, de Ernesto Sampaio, As Grandes Ondas, de António Barahona e Aventuras de um Crâneo e Outros Textos, de Mário Botas), e também com a revista Telhados de Vidro, que tem marcado toda uma época com um posicionamento radical, e de que saiu agora o nº 18, com uma surpreendente antologia de poesia em 2013, em que convivem, na diferença, nomes firmados (Hélia Correia, Fátima Maldonado, A. M. Pires Cabral ou Fernando Guerreiro) com outros ainda em busca de afirmação - ou não (Jorge Roque ou Marta Chaves). Simultaneamente chega-nos o terceiro número da nova revista da Averno, a Cão Celeste, outro projecto assinalável, não apenas pelos conteúdos, mas também, e particularmente, pelo grafismo inconfundível da responsabilidade de Luís Henriques, mas com colaboração visual muito diversificada.

[...]"


João Barrento, "Os pirilampos da edição": 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

terça-feira, 23 de julho de 2013

«As folhas dos dias estavam em branco.»


Em Agosto havia
tempo e vagar. Obras
paradas, cães sem coleira
e um vizinho sentado à janela
entre cortinas de mofo. Hang on
sleepy town. Tudo adiado.

Sobrávamos nós, os conspiradores,
murados no terraço pela sombra
das montanhas; sobravam
também, toda a tarde,
as luzidias ilhas de vinil
em rotação –

e enquanto o espinho
de diamante as percorria,
víamos por vezes
acender-se na penumbra
a cidade de onde nos tinham
degredado desde sempre

e para sempre, tão forte
era o apelo da estranha língua
nativa: ruas sem retorno, negras
escadarias, túneis que levavam,
madrugada dentro, aos enredos
do futuro –

por favor, por favor,
que tudo comece. Num silêncio
sem paz nem sossego
ficávamos depois abandonados.
E esses foram, já se sabe,
os melhores dias.





Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira
com ilustrações de Daniela Gomes, 
Lisboa: Averno, 2009

Dia 1 de Agosto, pelas 21h30, em Guimarães:






Maria João Worm / Diniz Conefrey

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Rui Nunes


O massacre concentrou-se em pequenas coisas. E sobrevive, nas cansadas viagens suburbanas. Sob os olhos colados de sono, a mão esquecida pesa ou afasta, às vezes cai, abandonada. Um cão enrola-se debaixo de um banco: as palavras têm aqui a aspereza de um vidro riscado. Estação a estação fica mais nítido o vómito nas janelas. E cada minuto recua até encontrar a sua explicação. 
Quem não conhece estas manhãs, duvida:
somos todos o passado clandestino dos felizes, quando o rio era um brilho entre salgueiros, um desvio incerto da infância. 


in Uma Viagem no Outono,
Lisboa: Relógio D'Água, Junho 2013

terça-feira, 2 de julho de 2013

ACORDEÃO


Pedir de mãos vazias é demasiado
triste. Talvez por isso, chegou a tocar
acordeão. Uma velha melodia
incapaz de ser alegre,
ainda que nos lábios um sorriso,
olhos apontados em direcção incerta.
O cão parece sentir a mesma coisa,
enrolado agora a um canto do tapete.

É dia de S. Valentim, com letreiro afixado
na montra, o problema da poesia frouxa
está oficialmente controlado. De repente
precisamos de todo o espaço
que vai da garganta ao coração,
esquecemo-nos da conversa
com que estávamos para aqui
a libertar o tempo e a prender ideias.

Mas é a realidade que muda
ou somos nós? É espantoso
o que uma pequena melodia consegue fazer.
Às vezes é preciso ficar só,
com os nossos próprios medos,
ser capaz de suportar a escuridão.
E na terra expropriada construir
novos edifícios. Quando já não doer tanto.


Vítor Nogueira, Comércio Tradicional,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: Averno, 2008



sexta-feira, 28 de junho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013


MUSÉE DES BEAUX ARTS


About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.



W. H. AUDEN

sábado, 22 de junho de 2013

IV

ouvi falar de anjos,
mas os cães são os meus animais favoritos


Pádua Fernandes
in  Código Negro, 
Desterro: Cultura e Barbárie, 2013

domingo, 16 de junho de 2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

ANA PAULA INÁCIO


são como serras
altivas de cabras
e nós a montá-las
a percorrê-las
eles de cães
cios armados
o gelo quebrado
as mãos retalhadas
a alegria do sangue
no chão das casas
onde o pão entra
a escassos bravos
o choro dos filhos
as plantas amargas
o olho vazo
dum cão atiçado
o desígnio do que vai morrer


in As Vinhas de Meu Pai
 (2000)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

LAIKA


Numa esfera de metal
Do melhor que possuímos
Gira dia após dia um cão morto
À roda da nossa terra
Como aviso
De que também ano após ano
Poderá um dia girar à roda do sol,
Carregado com uma humanidade morta,
O planeta terra
O melhor que possuímos.


Günter Kunert




[Aqui]

JOHN MATEER

"INVICTUS e a revolução negociada
ou a ideia de poema lírico segundo Clint Eastwood"

MÁRIO BOTAS


10.

Compõe-se a imagem do que sou, de um ser outro e distinto dos nomes que chamei à Morte, ao Destino ou à Vida, quando tenho de estar só, e sou o espelho onde a minha imagem se deflecte e entra a correr no Infinito.
Espera, imagem, não corras, deixa-me saborear a paisagem, deixa-me levar recordações, cabelos, a sombra pacífica de um cão que paira sempre a meu lado.
Deitado, podre, vão-me sair pelos olhos e pelo nariz os humores do esquecimento. Tu que me podias reconhecer, também tu me renegaste e partiste.
Animais que tive, e me não deixam sozinho, venham imitar o filósofo vosso mestre.
Queridos bichos sem imagem racional, acompanhem-me, ao menos vós, na claridão imensa da morte.
 
 
 


in Aventuras de um crâneo e outros textos,
Lisboa: Averno, 2013

quarta-feira, 5 de junho de 2013

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DIÓGENES - 2012


REGULAMENTO


1. O Prémio Nacional de Poesia Diógenes, instituído pela revista O Cão Celeste, destina-se a galardoar anualmente uma obra de autor português originalmente publicada em território nacional no ano anterior ao da divulgação do Prémio.

2. O valor pecuniário deste Prémio é de €1500,00 (mil e quinhentos euros).

3. A divulgação do regulamento é feita através da revista O Cão Celeste e do blog homónimo (ocaoceleste.blogspot.com).

4. Para apreciação do Júri, de cada livro concorrente editado em 2012 deverão ser enviados três exemplares, que não serão devolvidos, para a Rua Luís de Camões, 126, 1.º Direito, 1300-363 Lisboa, até ao dia 30 de Julho de 2013.

5. Cumpre à Direcção de O Cão Celeste eleger um Júri composto por três membros, que não poderão ser contemplados com este Prémio na condição de autores ou ter, enquanto editores, obras a concurso. Desses três membros, apenas um poderá voltar a integrar o Júri designado para o ano seguinte,

6. A deliberação do Júri assentará num critério de maioria simples.

7. O Prémio não será atribuído se o Júri decidir que nenhuma das obras a concurso o justifica.

8. Se o Júri assim o deliberar, o Prémio poderá ser atribuído ex aequo.

9. A deliberação do Júri não é passível de recurso.

10. O anúncio da obra premiada será feito assim que for conhecida a deliberação do Júri, nos mesmos órgãos em que foi divulgado o regulamento do Prémio Nacional de Poesia Diógenes.

11. A entrega do Prémio ao autor galardoado terá lugar numa cerimónia pública a definir oportunamente.

12. Os casos omissos neste regulamento serão apreciados e decididos pela Direcção da revista O Cão Celeste, cuja decisão será irrecorrível. 

sábado, 1 de junho de 2013

O lançamento do CÃO CELESTE # 3...




... será no próximo dia 14 de Junho (6ªf), 
pelas 22h, no Paralelo W,
com apresentação de Rosa Maria Martelo. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Acabou de chegar...





Neste terceiro número do Cão Celeste, com direcção de
Inês Dias/Manuel de Freitas e coordenação gráfica de Luís Henriques,
colaboram Alexandre Sarrazola, André Lemos, António Barahona, Cláudia Dias, Daniela Gomes, Diniz Conefrey, Étienne Carjat, Fabiano Calixto, Inês Dias, Isabel Baraona, Isabel Nogueira, John Mateer, Jorge Roque, José Ángel Cilleruelo, Konoe Nobutada, Luís Filipe Parrado, Luís Henriques, Luis Manuel Gaspar, Manuel de Freitas, Manuel Diogo, Maria João Worm, Pádua Fernandes, Paulo da Costa Domingos e Ricardo Castro.

domingo, 26 de maio de 2013

quarta-feira, 22 de maio de 2013

"I don't wanna grow up" (2:31)



When I'm lyin' in my bed at night
I don't wanna grow up
Nothin' ever seems to turn out right
I don't wanna grow up
How do you move in a world of fog
That's always changing things
Makes me wish that I could be a dog
When I see the price that you pay
I don't wanna grow up
I don't ever wanna be that way
I don't wanna grow up

Seems like folks turn into things
That they'd never want
The only thing to live for
Is today
I'm gonna put a hole in my TV set
I don't wanna grow up
Open up the medicine chest
And I don't wanna grow up
I don't wanna have to shout it out
I don't want my hair to fall out
I don't wanna be filled with doubt
I don't wanna be a good boy scout
I don't wanna have to learn to count
I don't wanna have the biggest amount
I don't wanna grow up

Well when I see my parents fight
I don't wanna grow up
They all go out and drinking all night
And I don't wanna grow up
I'd rather stay here in my room
Nothin' out there but sad and gloom
I don't wanna live in a big old tomb
On Grand Street

When I see the 5 o'clock news
I don't wanna grow up
Comb their hair and shine their shoes
I don't wanna grow up
Stay around in my old hometown
I don't wanna put no money down
I don't wanna get me a big old loan
Work them fingers to the bone
I don't wanna float a broom
Fall in love and get married then boom
How the hell did it get here so soon
I don't wanna grow up


Tom Waits / Kathleen Brennan

domingo, 12 de maio de 2013

Jean Cocteau


O ofício do poeta, ofício que não se aprende, consiste em colocar os objectos do mundo visível, tornado invisível pela borracha do hábito, numa posição insólita que interpele o olhar da alma e lhe confira tragédia. Trata-se, pois, de comprometer a realidade, de a apanhar em falta, de a inundar subitamente de luz e de a obrigar a confessar o que ela esconde. [...]



[Raymond Voinquel, "Jean Cocteau", 1942]

sexta-feira, 10 de maio de 2013


"A única responsabilidade política, o imperativo categórico da arte é hoje o de se limitar radicalmente a uma estética da verdade, que não tem nada a ver com os negócios do dinheiro ou das ideologias, mas muito mais com o luto (Trauer) ou, na melhor das hipóteses, com alguma alegria."


Hans-Jürgen Syberberg,
citado por João Barrento in 90 Poemas de Günter Kunert,
Lisboa: apáginastantas, 1983

terça-feira, 7 de maio de 2013

NOITE E NEVOEIRO – ALAIN RESNAIS (1955)

 
1.

Leni Riefenstahl não sabia de nada.

No terror dos anos trinta, quando tantos
se calavam, para sempre, seus filmes
difundiam corrupios de assassinos:
a física da morte em movimento, a festa
dos ferozes. Parada de conversos ao sublime
bebedouro das entranhas, com gorjeios
orquestrados por demente cabra-cega.

Tudo isto, recordemos, junto à fonte
do mais ímpio fedor.

Os seus filmes destruíam a realidade,
mas ela não sabia. Não saber é antegosto
dos estetas e ferrete dos pequenos.
Quem sabe, perde a fome, dorme
pouco, faz as malas. O melhor
para a saúde, realmente, é não saber.

2.

Diz-se que Jdanov puxava da caneta
sempre que ouvia a palavra “memória”:
apontava baixo e certeiro – era difícil
não lhe sorrir. Os tecnocratas,
toda a gente o sabe, têm boa pontaria.
Do Inferno sabem tudo, mas do inferno
nunca ouviram falar. Percebe-se,
evidente, que lhes dá mais jeito assim.

Estão por conta do zeitgeist, pensam
eles, e continuam. Isso lhes basta.
A vontade é o seu elemento: descem
manípulos, orientam lâmpadas, decidem
ângulos, apõem rubricas – é surpreendente
a facilidade com que gritam
“corta!”, “rua!”, “mata!”, “não!”


- José Miguel Silva, Movimentos no escuro,
Lisboa: Relógio D'Água, 2005
 
[AQUI]

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Gerard Manley Hopkins


POETRY AT OXFORD


It is a happy thing that there is no royal road to poetry. The world should know by this time that one cannot reach Parnassus except by flying thither. Yet from time to time more men go up and either perish in its gullies fluttering ‘excelsior’ flags or else come down again with full folios and blank countenances. Yet the old fallacy keeps its ground. Every age has its false alarms."


- extrato de um Diário de 1864





domingo, 28 de abril de 2013

Emily Dickinson



in Poems of Emily Dickinson,
com desenhos de Helen Sewell,
Connecticut: The Heritage Press, 1952


sábado, 20 de abril de 2013

A ERVA-ANDORINHA E A CURA DA CEGUEIRA

[...]

Creio que a poesia, mais do que o que diz, ama o que se furta ao dizer. “A tarefa do poeta: após descobrir – encobrir” (Marina Tsvietaieva, Indícios Terrestres). A poesia não é moderna. O espírito moderno é o da descoberta. A poesia, porém, recobre, revela. O espírito moderno é o do novo. A poesia trata da origem (e “a novidade é a antítese da originalidade), segundo a expressão de George Steiner em “Presenças Reais”). O espírito moderno é invenção, progresso. Na poesia o movimento é um regresso, é o verso. O espírito moderno é técnico, mecânico. O da poesia é rítmico. Para o espírito moderno, democrático, o segredo escandaliza e a devassa legítima. Mas a poesia, se diz o segredo é para o preservar intacto, para o transmitir mais puro (Luiza Neto Jorge: “Não podendo falar para toda a terra/ direi um segredo a um só ouvido”). O espírito moderno é proclamação, palavra de ordem, reclamação e grito. A poesia nada mais pode senão o canto e o murmúrio. Ela teme que sobrevenha ao coração dos homens a cólera de Enlil. “Disse ele aos deuses reunidos em conselho: ‘O tumulto da humanidade é intolerável e já não é possível dormir com esta confusão.’ E assim os deuses concordaram em exterminar a humanidade” (A Epopeia de Gilgamesh).

[...]


 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

"Haverá uma beleza que nos salve?"


Não é a beleza que salva, mas, sim, a arte da beleza: a Poesia, gramática da nudez concisa.


- António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013



*



«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»


Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.


- Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada, 
Lisboa: &etc, 2006

terça-feira, 9 de abril de 2013

sábado, 6 de abril de 2013

THE SKY'S GONE OUT


No future, just a little past.
Sim, até os punks podem ter saudades.
Regressavam ao esmo de uma
obscura cidade da Alemanha
e não encontravam o Gingão,
o Gráficos, o Esteves da taberna homónima.
Também não encontravam, claro,
o fulgor bêbedo dos quinze anos
(fenómeno bastante natural).
Raio de povo este, que nem ao futuro
consegue pôr os cornos,
injectado de pavor e de memórias.

Não,
não é feliz aquilo a que chamamos noite.
Os mais jovens (e mais estúpidos) substituem
distraidamente aqueles que a idade
tornaria ainda piores. "All we ever got
was cold" - não duvidem.
O Esteves, por exemplo, nunca
ouviu falar do parente literário
que talvez tivesse sido dono de uma tabacaria.
Preferia segurar a porta nos ombros
de betão armado e sacudir a cinza, desconfiando
sempre dos novos guerrilheiros urbanos.
Nenhuma navalha o matou; atropelado na aldeia,
acedeu em trespassar sabedoria e esquecimento.

Outro caso de que me lembro: o do Manel
do Estádio. Não sei, aliás, como enterrá-lo.
Morreu como ninguém morre,
faltou-me todo inteiro numa tarde de Novembro.
Chegou de um Norte qualquer, o meu Manel
somente, e trouxe menos fundura ao poço 
da minha e de tantas outras vidas.
Só foi pena ter doído assim a última cerveja,
no maior desconhecimento de me estar a despedir.

Batemos a portas fechadas, sentimos nos ouvidos secos
a penumbra de um vinho impartilhável.
E é, afinal, tão simples: destronada a música,
ninguém ousará sequer convidar-nos para dançar.
Que nos murassem as certezas, estava bem.
As dúvidas, contudo, deixaram de ter onde nos ferir.
Olhos impávidos vêem o cão da noite recolher-se,
abrir por curiosidade as veias, saborear a derrota.
"All we ever wanted was everything" - mas
deram-nos sopa de nada, restos num prato vazio.


Manuel de Freitas, A Flor dos Terramotos,
Lisboa, Averno, 2005

[retirado daqui]

terça-feira, 2 de abril de 2013

António Barahona



XI

A humanidade não me importa muito, nem pouco, nem nada: o meu próximo, sim, importa-me tudo, na tentativa de nele amar o Todo. A humanidade é uma abstracção de políticos e filósofos ateus, nazis, comunistas, tecnocratas, etc., que pretendem transformar o mundo num campo de concentração global, povoado, na sua maioria, por uma espécie de canalha, dependente de máquinas (cada vez mais sofisticadas) e desligada do transcendente por incapacidade mental.
O meu próximo é concreto, como este texto que exprime, letra a letra, o espírito do que digo.
O Profeta Jesus (que a paz esteja com ele), o Sêlo da Santidade, quando multiplicou os peixes e os pães, mandou a multidão repartir-se em grupos; e, aos grupos, mandou que dividissem, entre si, a parte que lhes coubera para que, dentro de cada grupo, cada um partilhasse com o próximo.


- in As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013



[Dinis Conefrey]

domingo, 31 de março de 2013

E a tua ferida, onde está?


Pergunto onde fica, em que lugar se oculta a ferida secreta para onde foge todo o homem à procura de refúgio se lhe tocam no orgulho, se lho ferem? Esta ferida - que fica assim transformada em foro íntimo - é que ele vai dilatar, vai preencher. Sabe encontrá-la, todo o homem, ao ponto de ele próprio ser a ferida, uma espécie de secreto e doloroso coração.
Se observarmos o homem ou a mulher que passam com olhar rápido e voraz - e também o cão, o pássaro, uma panela - a velocidade do olhar é que nos mostra, ela própria e com rigor máximo, que ambos são a ferida onde se escondem mal sentem o perigo. O quê? Já lá estão, já os conquistou - deu-lhes a sua forma - e para ela a solidão: lá estão inteiros no retesar de ombros em que passam a concentrar-se, com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca, e contra a qual nada podem nem querem, pois dela é que sabem esta solidão absoluta, incomunicável - este castelo da alma - para serem a própria solidão.


Jean Genet, O Funâmbulo,
trad. de Aníbal Fernandes,
Lisboa: Hiena Editora, 1984



Caravaggio, "A incredulidade de S. Tomé", 1601

sexta-feira, 29 de março de 2013

NOTA


A beleza da língua portuguesa provém das suas raízes (latina, grega e árabe), da dicção do povo e da invenção dos poetas, os três factores fundamentais que hoje, tal como hontem, pretensos reformadores assassinam e desfiguram.
Não se estranhe, portanto, neste livro, como, aliás, em todos os nossos livros, grafias diferentes da que, erradamente, se tornou quase comum. 
Guia-nos o critério biológico e estético de Teixeira de Pascoaes e, nele inspirado, algumas palavras, principais ou nucleares, escrevêmo-las com recurso à etymologia genética e tendo sempre em conta a sua conduta musical.
A ortografia é uma arte subtil (variável conforme o contexto), que complementa as artes da caligrafia e da leitura.


António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013


“Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro.”
 
Entrevista com Giorgio Agamben

domingo, 24 de março de 2013

ALONE TOGETHER


à memória de Mário Alberto


Não sou saudosista, até porque sempre tive grandes dúvidas de que haja épocas dignas de serem vividas. Muito menos, acrescento, serei saudosista do que não vivi. E não conheci, infelizmente, o Mário Alberto. Gostava muito de me ter embebedado com ele, mas não calhou. Quando cheguei a Lisboa, já o Parque Mayer era uma ruína pouco aliciante, sem a corrosão ou a magia de outros tempos. Havia, é certo, algumas tabernas. Mas a própria Baixa foi definhando; as livrarias transformaram-se em bordéis, os cafés foram-se tornando irrespiráveis, incompatíveis, quase todos, com a minha obscena vontade de fumar. Resta o Estádio, na sua triste e azul teimosia. Nunca morri de amores pela Trindade, e a estátua pouco equestre do Pessoa matou-me de vez a Brasileira.

Não houve, repito, tempos melhores. Mas seria outra coisa, fatalmente preferível, encontrar num desses cafés o Manuel de Castro, o António José Forte, o Mário Cesariny, o Ernesto Sampaio - ou o Mário Alberto, claro. Hoje temos a pouca sorte de assistir à "criação ao vivo", como se a literatura fosse uma matança do porco, em directo. Temos, enfim, poetas muito mediáticos, gente deveras talentosa e os cagalhões ampliados da Joana Vasconcelos. Uma colorida tristeza, se virmos bem.

[..]


Manuel de Freitas, Cólofon,
Lisboa: Fahrenheit 451, 2012

CASIDA VII - DE LA ROSA


La rosa,
no buscaba la aurora:
casi eterna en su ramo,
buscaba otra cosa.


La rosa,
no buscaba ni ciencia ni sombra:
confín de carne y sueño,
buscaba otra cosa.


La rosa,
no buscaba la rosa:
inmóvil por el cielo
buscaba otra cosa.


Federico García Lorca
(na voz, claro, de Chavela Vargas)




[Ilustração de Luís Henriques
in Cão Celeste n.º2, Lisboa: Outubro de 2012]

sábado, 23 de março de 2013



Vittore Carpaccio, "Retrato de um cavaleiro", 1510
[Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid]

quarta-feira, 20 de março de 2013

HISTÓRIA DE CÃO

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada


Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação,
2ªed. revista, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005
 

sábado, 16 de março de 2013

O ANJO PERPLEXO

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos,
nem ícone que proteja, nem oração que console;
nunca houve milagres ou prodígios,
nem salvação da alma ou vida eterna;
nem palavras mágicas, nem bálsamo eficaz
contra a dor que não enfraquece nunca;
e nem luz do outro lado das sombras,
nem saída do túnel, nem esperança.
Só nos acompanha nesta travessia
um anjo da guarda perplexo que suporta
a mesma vida que cão que nós todos.


Amalia Bautista, Estou Ausente,
Lisboa: Averno, 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

Deus disse: "Em minha inquietação.
foi necessário pôr-te neste mundo
como se exibe uma ferida sem pudor.
Assim me condenei a ter-te pela trela,
a dar-te de comer três vezes cada dia,
a tirar-te os parasitas:
o sonho, o absoluto,
na precisão de crer-te meu igual.
Mas eu sou generoso:
ainda pela alva ao perfume das rosas
autorizo-te a dizer que foste tu
que me criaste.
Voltemos para casa, caro cão:
vai buscar-me o teu osso
e dorme diante da lareira
com o olhar molhado de ternura."


Alain Bosquet, O Tormento de Deus,
trad. Jorge Guimarães,
Lisboa: Quetzal Editores, 1992

Hoje, no ÍPSILON/PÚBLICO:


quarta-feira, 6 de março de 2013

JOANA


Eu pensava que tinha
o problema resolvido
e ainda hoje um de alsácia
se aproximou e a minha pele
tremeu, a minha esperança
fugiu. Nunca terei
quem assim me defenda
dos dias banais, de outros
terrores, quem assim me encontre
com pouco para dar. Eu pensava
que tinha outra vida
a viver e uma noite propícia
a palavras deixou-me a verdade
e o impossível. Não se sabe já
quem conduz quem, passos,
sagrada obediência
adivinhando emoções na guarda
dos dias. Outra cegueira
é a minha, cortei-me nas mãos
e separei-me de mim, ouvi
os enganos do amor previsto.
Corre comigo enquanto
não posso, cheira-me as pernas
e reconhece o estranho, não gosto
de cães, só gosto de ti.



Helder Moura Pereira, Eliot e Larkin no comboio para Hull (1989)

terça-feira, 5 de março de 2013


[...]

Tenho uma recordação de mim em criança, a afagar um pormenor num romance. Recordar o momento é outra forma de restaurar a fé na ficção. A experiência foi hipnótica, com consequências para toda a vida, porque me mostrou como os mundos dos factos e da ficção podem interpenetrar-se. Eu tinha 13 anos, estava sozinho na biblioteca da escola, fascinado com The Go-Between, de L. P. Hartley. O herói, Leo, filho de uma família pobre, passa as férias de verão de 1900 com um colega, cuja família tem uma grande casa de campo. O cerne da acção é, claro, o papel de Leo como mensageiro numa relação amorosa ilícita. Mas o que me envolveu foi a onda de calor daquele mês de julho e o fascínio do rapazinho pelo termómetro da estufa, sempre à espera que o mercúrio atingisse os 100 graus. O exemplar dessa semana da revista satírica Punch chega à casa e, lá dentro, um desenho mostra "O Sr. Punch debaixo de uma sombrinha, franzindo o sobrolho, enquanto o Cão Toby, com a língua de fora, se arrasta atrás dele."

Lembro-me de pôr o livro de parte e, num movimento inspirado, atravessar a biblioteca até às prateleiras onde as velhas edições de Punch estavam guardadas, tirar o volume de 1900 e abri-lo no mês de julho. E lá estavam eles, o cão sobreaquecido, a sombrinha e o Sr. Punch a limpar a testa com um lenço! Era verdade. Senti-me cativado, deliciado, com o poder de algo simultaneamente imaginado e real. E por instantes senti uma tristeza inabitual, nostalgia por um mundo de que fora excluído. Por um momento, eu tinha sido Leo, a ver o que ele via, e era de novo 1962 e eu estava na escola interna, sem onda de calor, apenas com este pequeno vestígio de uma revista que amarelecia.

[...]



Ian McEwan, "Apostasia Ficcional"
(trad. de António Costa Santos)
in Atual/Expresso, 2 de Março de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

GUERRA & PAZ


Pedidos sacrifícios, as imagens
Foram trazidas na maré, enxutas.
Treme a escada torpe, e o cão ladra -
São os antepassados, fixos,
Na água das janelas.
Que podemos fazer, o fumo
Entra nas casas é preciso
Uma porta que nos leve ao mar.
 

 
 Gil de Carvalho, De Fevereiro a Fevereiro,
Lisboa: Centelha, 1987

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

[...]

Negro brilhando arrastava consigo o nosso olhar,     por necessidade física de o vermos ser cão; nunca um cão a fazer o seu trabalho fora um tão minucioso movimento em espirais e volutas; fazia redemoinhar o centro do lugar onde estávamos arrastando consigo instrumentos de música e nascimentos; era uma forma correspondente ao branco potencial dos cordeiros que o tratavam respeitosamente por vós; nas águas frequentemente tão estagnadas do afecto, eles faziam variar as rotações mil vezes por unidade de salto.

Era um rebanho, Aramis?, era um agregado de estrelas luminosas vistas pelo lado baço da lã?, era a nossa constelação reanimando-se e, num esforço dos seus músculos, pousando, confidencialmente, a sua configuração na serra de Ossa?



Maria Gabriela Llansol, O raio sobre o lápis,
com desenhos de Julião Sarmento,
Lisboa: Europália, 1991

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013



Fotografia de Lola Alvarez Bravo, "Frida Kahlo e os seus cães Xoloitzcuintli", 1944. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

CERIMÓNIA FUNESTA


O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos,
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estreme ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.


Fátima Maldonado
in Telhados de Vidro n.º1
Lisboa: Averno, Novembro de 2003

sábado, 26 de janeiro de 2013

SE HÁ CÃES DE SONO...

Se há cães de sono que os meus pulsos rasgam
cães de dentes em lava,
se há algas nos teus olhos,
se escrevo no papel a baba dos teus beijos
nenhum vagar de sombra
nenhum campo natural do vivo olhar.

Se nos teus olhos vejo um vale,
se posso dizer casa, vento, nu,
nenhuma terra pousa sobre a terra,
sobre a mão que escreve
nem a sombra cai.
Que escrevo então, nudez sem corpo,
janela sobre um mar sem mar,
mão sem mão,
porque persigo um rastro sem faro, opaco e frio?
Que face ou região, círculo aberto,
página que no silêncio não ascende,
sopro que não sobe à boca, lua morta?
Se não te quero, imagem fútil,
luva de nada,
porque insisto no pálido círculo deste campo?

Se não há sol nem mãos que o arrebatem,
se árvores não vejo, nem destroços restam,
um tudo há-de nascer, ou já nasce de nada,
de cães de raiva insones, cães insones?
Oh, dormir sem nada mais, dormir apenas,
dormir para acordar
como se houvera um acordar de vez.


António Ramos Rosa, Respirar a sombra viva,
Lisboa: Plátano Editora, 1975

sábado, 19 de janeiro de 2013

CANIS MAJOR


The great Overdog
That heavenly beast
With a star in one eye
Gives a leap in the east.

He dances upright
All the way to the west
And never once drops
On his forefeet to rest.

I'm a poor underdog,
But to-night I will bark
With the great Overdog
That romps through the dark.



ROBERT FROST

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O BARULHO DA LUZ

[...]



2

Ninguém é filho do poema universal
nem pai do seu rebanho 
de versos.
Nocturno dos sentidos
ó cão
de muitos anos
que justiça arrastas na coleira,
a cegueira de deus
a bengala da cólera dos humanos?



[...]


Armando Silva Carvalho
in Hífen n.º6, Porto, Fevereiro de 1991